22 de junho de 2016

Biografia sobre André Leite (ID2)



Meu nome é André Leite e nasci em 1977 na cidade de Fortaleza/CE. Sou filho de uma senhora nordestina, chamada Joselina, mulher de fibra e caráter! Venho, através deste testemunho, partilhar como Deus foi e é presente em minha vida, mesmo quando não conhecia Sua palavra, mesmo quando, por imaturidade ou ingenuidade, não percebia Sua santa presença. Que essa partilha da minha vida possa mostrar aos jovens, os que conhecem o amor de Deus e, principalmente, os que ainda não O sentiram ou vivenciaram, como Deus é capaz de amar até mesmo quem não sabe rezar. É um prazer poder partilhar minha história, cheia de altos e baixos, com vocês! Espero que esse testemunho possa ser um estímulo de força e esperança, que gere um ímpeto, a superação nos corações de meus irmãos e irmãs.

 

Sou fruto de uma paixão não correspondida de uma jovem por um rapaz, meu pai, que jamais conheci. Ainda nos dias de hoje é muito comum pais não assumirem seus filhos e mães jovens terem que criar seus filhos sozinhas, desamparadas, muitas vezes até mesmo por suas famílias, agora imaginem isso no Nordeste, em 1977.

Meu avô era um homem rústico e muito rígido, um tradicional sertanejo descendente do cangaço, minha avó, uma mulher amorosa e de muita generosidade, porém submissa às leis rígidas e costumes de meu avô. Evidentemente ele não aceitou a gravidez de minha mãe, que precisou fugir comigo, sem estudo, maturidade, ou qualquer estrutura. E assim ela partiu para o mundo comigo nos braços. Me recordo, muitas vezes, de escutá-la contando como chorava sentada na calçada, em desespero, sem saber o que fazer para se abrigar, com um bebê de meses em seu colo. Ela conta que estava na porta de uma igreja no centro de Fortaleza, quando passou um rapaz, que era cozinheiro na casa de uma advogada muito rica. Vendo minha mãe chorando lhe ofereceu abrigo ao saber o que se passava. Dormimos por várias noites em um centro onde esse rapaz era pai de Santo. Logo esse rapaz veio a conseguir trabalho para ela como costureira, onde ela pôde nos manter e podíamos morar no local do trabalho.

E assim passou-se um ano, até que meu avô deixou a casa de minha vó e minha mãe pôde voltar para o amparo do lar e contar com o apoio de minha avó. Lá permanecemos por mais um ano, até que minha mãe partiu rumo a São Paulo em busca de um novo recomeço.

Como todo nordestino bem-intencionado e honesto, ela chegou a São Paulo com a vontade forte de trabalhar. Logo conheceu o pai dos meus três irmãos, um homem bom e trabalhador. Porém, após três anos de convivência ele veio a se transformar, em função do vicio com o álcool. Lembro-me de vê-la lutando de todas as formas para manter o casamento e ajudar meu padrasto a vencer o vício, até que um dia, enfim, ele desapareceu.

São Paulo era e é, até hoje, uma cidade muito violenta. Para quem é financeiramente pobre, e sem instrução não existe muita alternativa em termos de moradia, a não ser cair em favelas onde a violência tende a ser maior ainda.
Foi uma luta muito grande, de aproximadamente um ano, onde minha mãe imaginava que ele estivesse morto. As visitas em necrotérios eram frequentes nos primeiros meses, e com o passar de oito ou nove meses (não lembro muito bem) minha mãe milagrosamente o encontrou vivo em um hospital, com um raciocínio equivalente ao de um bebê. Ele havia sido vítima de um atropelamento, arremessado em um córrego e quando resgatado estava sem identificação. Tudo isso foi um choque. E então tivemos mais um ano terrível, muita dificuldade, muita tristeza, muita fome, muito medo.

Com o passar do tempo as coisas foram, lentamente, entrando no seu devido lugar. Ela trabalhava de faxineira para manter a casa, meu padrasto se recuperou e voltou a ser uma pessoa capaz, porém não conseguiu vencer a dependência química. Os descontroles causados pelo alcoolismo eram frequentes, até que chegou ao ponto em que minha mãe decidiu se separar e seguir seu caminho, sozinha. Minha mãe abriu mão dela mesma por nossa felicidade, lutou com muita garra durante toda a nossa infância, até que eu cheguei à minha adolescência e me transformei no seu braço direito. Passei a ser o pai de meus irmãos. Ainda com todo o drama, hoje percebo que Deus já estava operando em nossas vidas. Me pego pensando às vezes e me lembro perfeitamente, sempre que as coisas estavam realmente impossíveis de serem resolvidas aos nossos próprios meios, algo acontecia, e mudava a situação de forma milagrosa, e digo isso em todos os aspectos em que consigo me lembrar. Tive que amadurecer muito cedo! Lembro-me de muitas vezes ser conselheiro e amigo de minha mãe, ela era a minha estrutura e eu a dela.

Com doze anos de idade eu já não aceitava mais os não da vida, meu corpo já tinha me garantido os meus um e setenta e dois de altura e isso me encorajou a trabalhar para ajudar em casa. Eu já cantava, mas não profissionalmente. Na verdade comecei a cantar por influência de minha própria mãe. Lembro-me de vê-la cantando enquanto lavava as roupas, e a voz dela mexeu comigo já na infância. Durante minha adolescência fui influenciado pelos artistas de Rock que assistia na TV, e aí começou o desespero de minha mãe, pois sendo eu adolescente, sem pai para me segurar, ela temia o que me poderia acontecer, até mesmo pela fama negativa associada a esse gênero musical. Mas nada disso adiantou, eu queria cantar e fui!

Hoje, pensando sobre essa fase de minha vida, tenho mais uma vez a certeza de que Deus já cuidava de mim. Lembro-me muito bem que nessa época a revolta explodia em meu coração. A adolescência foi menos sofrida em alguns aspectos, porém ainda mais que a infância em outros. Apesar de minha mãe ter sido uma heroína, é fato que a figura de paterna me fez muita falta. Em minha adolescência eu era um garoto dividido entre minhas obrigações quase que paternas para com meus irmãos e meus sonhos e ansiedades da idade. Imagino o quanto minha mãe deve ter se preocupado comigo, pois me desenvolvi rapidamente na música e, em pouco tempo, estava cantando em ambientes com fácil acesso a diversos tipos de “distrações”, que poderiam facilmente acabar com minha vida, caso eu me deixasse levar.

Embora movido pelos hormônios da idade, sempre que ia fazer algo, pensava imediatamente no cômodo onde morava com minha família, lembrava-me da face de minha mãe me pedindo para ser uma pessoa correta.

Deus sempre tocou em minha consciência. Recordo-me do dia em que tive a primeira oportunidade de usar drogas, naquele momento senti Deus tocar minha consciência com o seguinte pensamento: comparei a realidade do meu colega que se drogava com a minha realidade, imediatamente, percebi que ele era filho de um proprietário de uma famosa rede de clínicas dentárias em todo o Brasil, percebi que em todas as suas crises, ele havia recebido tratamento em clinicas de recuperação nos Estados Unidos. Em seguida imaginei minha realidade e rapidamente me dei conta de que em meu caso haveria somente o vício, a morte certa e o sofrimento de pessoas que tanto amava: minha mãe e meus irmãos.

Minha mãe confiava em mim. Deus me fez sentir o amor de minha família, e a ausência do pai biológico na terra, para o recebimento de diretrizes, foi preenchida pelo discernimento dado por Deus em minha consciência, por seu nítido amor paterno em toda minha história.

O tempo foi passando e com esse pensamento eu segui adiante dos 12 aos 15 anos de idade, outras lutas estavam por vir e mais uma vez eu teria provas da constante manifestação divina em minha vida.

Com 15 anos ainda morávamos em um cômodo em um fundo de quintal, na verdade um quarto que, antes de ser alugado por nós, funcionava como um canil. Eu trabalhava em uma madeireira para pagar o aluguel, ganhava estritamente o valor do aluguel e o serviço era extremamente pesado. Sempre fui muito magro, passávamos muita fome e, às vezes, era muito difícil ter forças para aguentar o trabalho braçal. Mas o que eu queria mesmo era cantar! Nesse período eu já possuía certa técnica vocal e minha voz chamou a atenção de um amigo muito especial a quem até hoje tenho grande gratidão. Ele me arrumou um teste em uma das maiores bandas de baile do Brasil na época. Lembro-me como se fosse ontem o susto que tomei quando vi a estrutura da banda, estava acostumado a cantar sozinho com meu violão velho em casa e a carregar madeira pesada na cabeça. Jamais poderia imaginar que eu mudaria a vida da minha família cantando em uma banda daquela.

Chegou o dia do teste! Chega até ser um pouco engraçada a situação: como na maioria das vezes não tinha comida em casa, fui para esse teste de estômago vazio. O líder da banda escolheu uma música com um tom muito alto para testar realmente a minha extensão vocal. Foi aí que a comedia aconteceu, dei o agudo e cai desacordado no chão da casa do homem. Foi muito legal, pois quando acordei tinha um X-tudo gigantesco esperando por mim e ainda passei no teste.

Após uma semana de trabalho viajando com essa banda, cheguei em casa e coloquei o meu primeiro salário semanal nas mãos da minha mãe. Morávamos em um barraco de cimento que, na mesma semana, foi substituído por uma das melhores casas da rua. Meus irmãos, que andavam com restos de chinelos e tênis velhos dos outros, tinham tênis novos e roupas bonitas. Tive o prazer de realizar um grande sonho de minha mãe, ela sonhava em trabalhar com costura e as máquinas industriais custavam uma fortuna, até hoje é coisa muito cara. Dei a ela as três máquinas mais caras que meu dinheiro pôde comprar. Mobiliei nossa casa com tudo que sempre sonhei em dar à minha família. Isso me proporcionou uma das melhores e maiores lembranças de minha vida.

O tempo passou muito rápido e conheci minha esposa, ainda muito garoto, sem estrutura, nos apaixonamos e nos casamos muito cedo. Eu estava pra completar 19 anos e ela tinha 21. Graças a Deus estamos juntos até hoje, mas ela enfrentou uma barra ao meu lado, pois a minha natural falta de maturidade promoveu muita desarmonia em nossa relação. Com um ano de relacionamento tivemos o nosso maior presente, nosso filho, que hoje tem 16 anos de idade. Neste capitulo que me liga a atualidade, sem fugir da agraciada regra, também percebo a proteção de Deus em meus passos.

As ansiedades mudaram durante esse trajeto, minhas perguntas amadureceram em relação à vida e uma enorme cratera surgiu em meu peito diante da ausência de respostas. Neste período nunca cometi nenhuma atrocidade em minha vida externa, mas, em meu interior, cheguei ao fundo do poço, como se todos os fantasmas do passado fossem formiguinhas diante dos monstros que meu presente me mostrava.

De 2003 a 2009 me afundei em uma depressão muito forte, troquei de trabalho por duas vezes. E, mesmo tendo “tudo” que um homem precisa ter, algo me faltava e não conseguia definir o que era. Por muitas vezes cheguei a beber para subir no palco, a ponto de começar a acreditar que eu era uma pessoa muito mais agradável alcoolizado. Quando me dei conta disso, percebi que, daquela forma, estava correndo um grande risco de fazer minha história se repetir em muitos aspectos com meu filho. Imediatamente fui freado pelo bom discernimento que veio verdadeiramente das mãos de Deus, que tocou em minha consciência, abrindo minha percepção, me fazendo entender que o que me faltava era justamente percebê-lo em minha vida. Foi aí que uma pergunta sincera, em uma noite de segunda-feira, resultou em uma resposta de Deus para a minha vida logo na terça-feira de manhã. Nesse momento da minha vida, aprendi a ver Deus com fé e a senti-lo como meu Pai cuidadoso. Perguntei: “Senhor, se o Senhor está realmente comigo, me responda o que o Senhor quer de mim”, e exatamente na terça-feira às 9 da manhã eu recebi uma ligação do Tiago Mattos me expondo a impossibilidade do Júlio, que era meu aluno de canto na época e vocalista do Iahweh, de cumprir uma data.

De cara, sem entender que aquela era a resposta, coloquei todas as dificuldades em aceitar, mas, por ação de Deus, não dei um não definitivo ao convite. Pedi ao Tiago que me ligasse mais tarde, então resolvi aceitar o convite. Para encurtar a história, duas semanas após estava me sentindo modificado, querendo frequentar a igreja. Comecei a participar de um grupo de oração, comecei a ler a bíblia com outro entendimento das coisas, me encontrei totalmente necessitado de viver tudo aquilo, pois tudo aquilo me trazia paz e preenchimento. Me senti forte, esperançoso, sem tristezas. Percebi que não conseguia perdoar muitas coisas ocorridas, mas também percebi que deixei de odiá-las, percebi que não odiar é um lindo passo para o perdão.
Lembro-me que procurei o Tiago logo depois de tudo isso, expliquei a ele sobre minha experiência interior. Naquela altura já havia entendido que tudo aquilo era a resposta para a pergunta sincera que fiz a Deus. Vejo hoje, com grande certeza, que o que sempre me faltou foi aceitar a paternidade de Deus por mim. O pai de carne e osso que eu poderia vê-lo se o procurasse, foi capaz de me deixar, mas Deus a quem não posso ver sempre me foi um Pai presente.

Hoje retorno paralelamente com uma banda que leva meu nome André Leite (ID2), a antiga banda secular chamada Tribunal de Rua com quem toquei na noite, hoje é uma banda Cristã, onde dentro dela, temos mais quatro testemunhos de superação e de encontro com Deus.

Essa é a minha história, até os dias de hoje e de sempre com Deus.


Por André Luiz Leite

4 comentários:

  1. André, que história linda. "Não odiar é um lindo passo para o perdão" veio do céu em um momento extremamente difícil da minha vida. Que Deus te abençoe.

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  2. André, o conheci no Especial do Padre Antonio Maria Borges na TV Aparecida, sua voz é um Dom de Deus, senti a presença de Deus em sua vida, também, em minha própria vida, tenho vivido esse Amor com Fé e Esperança. As letras de suas músicas me tocam, obrigada por dividir conosco sua Fé.

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  3. A parte do da Banda Hangar? Como fez parte desta trajetória desde o convite até a saída?

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  4. André Leite, me senti tocada profundamente, quando meu filho gravou uns vídeos católicos pra mim, e te conheci e me apaixonei por essa fé, que vem de sua voz através de Deus! Mônica, Jaboatão dos Guararapes.

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